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A Constelação Política: Gênese de um Modelo Relacional Sem Eixos Fixos

  • Foto do escritor: Luís André Beckhauser
    Luís André Beckhauser
  • 16 de jul.
  • 29 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Da linha cartesiana à fotografia de um céu em movimento


Pela primeira vez na história, a humanidade tornou-se simultaneamente sujeito, observadora e objeto operacional do próprio processo de formação cultural. Este ensaio parte dessa constatação e retira dela uma consequência prática: se o cidadão passou a ser, ao mesmo tempo, quem observa e o que é observado, então falta-lhe um instrumento. Não para descobrir de qual partido está mais perto (isso já existe, e será creditado adiante), mas para ver como o campo inteiro se reorganiza quando observado a partir de onde ele está.


A Constelação Política é um modelo que substitui os eixos fixos da geometria cartesiana por núcleos de convergência dinâmicos — pontos de gravidade intelectual que se formam, se deslocam e se dissolvem conforme a proximidade real de pensamento entre posições, sem um centro absoluto de referência. Como toda constelação, ela é a fotografia de um momento: um recorte temporal que revela relações de distanciamento e proximidade entre duas ou mais posições, válido para o instante em que é observado, e para quem o observa.


Mais do que uma correção geométrica, é uma tentativa de devolver ao observador comum o seu próprio ponto de vista. Perceber, por conta própria e tema a tema, a que distância se está de cada posição — antes de qualquer rótulo de bloco — é uma forma de libertação anterior a qualquer escolha entre esquerda e direita. É essa relevância, e não a elegância do modelo em si, que justifica o esforço de propô-lo.



Este ensaio tem versão interativa. O modelo descrito aqui pode ser navegado em 3D — sete temas, pesos que você declara, o céu se reorganizando ao seu redor — em politicalconstellation.org/brasil/experimento.html. O projeto completo, com as versões em sete idiomas, fica em constelacaopolitica.org. O exame adversarial deste texto está em Autocrítica: os limites reais da Constelação Política.


 

I. A gênese: por que este texto começa contando como chegou até aqui


A maioria dos modelos teóricos é apresentada já pronta, como se tivesse nascido inteira de uma intuição isolada. Este texto propõe o contrário: registrar o próprio raciocínio que o produziu, porque a forma de gestação de uma hipótese explica tanto quanto a hipótese em si — e porque o percurso, neste caso, ensinou mais do que o destino.


O ponto de partida foi o mais elementar possível, do tipo que se costuma considerar ingênuo demais para ser formulado em voz alta: por que a política é descrita por uma linha com dois polos? A resposta é histórica, não teórica. A disposição física dos deputados na Assembleia Nacional Francesa de 1789 — monarquistas à direita da mesa, reformistas à esquerda — transformou um acidente de assento em metáfora permanente.


Descobrir isso produz um desconforto específico, e vale nomeá-lo, porque foi ele que empurrou tudo o que veio depois. Não é o desconforto de saber que um modelo é imperfeito — todos são. É o de perceber que se estava usando, para pensar a própria vida pública, uma régua cuja graduação ninguém escolheu, e cuja origem é uma sala de reuniões do século XVIII.


O percurso que se seguiu passou por Eysenck, pela ferradura, pelos diagramas de dois eixos, e chegou a uma virada que parecia inteiramente nova — até encontrar, adiante, um conjunto de autores que já havia percorrido boa parte do mesmo caminho, com mais rigor e cinquenta anos de antecedência. Esse encontro está registrado na seção V, sem atenuações, porque foi a parte mais instrutiva do processo. Descobrir que a intuição não era original, mas estava certa, é uma forma incomum de boa notícia: significa que se acertou o problema, e que o instrumental para atacá-lo já existia, esperando por um uso que ninguém lhe havia dado.


Houve, depois, uma segunda descoberta, mais dura que a primeira, e ela está registrada na seção XI. Não apenas o instrumental já existia: o uso também. Instrumentos que entregam ao cidadão o cálculo de sua proximidade em relação aos partidos operam há décadas, em escala de dezenas de milhões de pessoas. Foi preciso então refazer a pergunta uma terceira vez — não mais “quantos eixos”, nem “quem recebe o resultado”, mas: o que exatamente esses instrumentos mostram, e o que eles não mostram? A resposta a essa última pergunta é o que resta de próprio neste modelo, e é deliberadamente estreita. (autocrítica)


II. A reserva moral: o Zeitgeist Algorítmico


Antes da geometria, a razão de ser. Este modelo não nasceu de um interesse por formalismos espaciais; nasceu de uma hipótese anterior sobre o que aconteceu com o espírito do tempo, e é dessa hipótese que ele extrai toda a sua urgência.


Durante séculos, o Zeitgeist parecia quase invisível. Moldava comportamentos, valores, crenças e percepções coletivas sem que a maioria das pessoas percebesse claramente sua atuação: nascia-se dentro de uma atmosfera cultural e absorvia-se como natural. A cultura operava silenciosamente, e em velocidade lenta. A formação do consenso dependia de instituições estáveis — escolas, universidades, igrejas, jornais, rádio, televisão. O século XX foi talvez o auge desse modelo: poucos emissores transmitiam símbolos e narrativas para milhões simultaneamente, e havia uma narrativa cultural dominante suficientemente forte para organizar a percepção coletiva da realidade.


As plataformas digitais alteraram estruturalmente essa dinâmica. O que era vertical tornou-se horizontal; o que era lento tornou-se instantâneo; o que era relativamente centralizado tornou-se fragmentado, algorítmico e permanentemente mutável. Hoje não existe apenas um Zeitgeist dominante: existem múltiplos micro-Zeitgeists coexistindo, cada bolha desenvolvendo linguagem própria, referências próprias, valores próprios, inimigos próprios e formas próprias de percepção moral e política.


As micro-hegemonias algorítmicas


Esse fenômeno tem um nome, e ele deriva diretamente da atualização da teoria gramsciana da hegemonia cultural para o ambiente tecnodigital. Onde Gramsci descreveu o poder que se sustenta pela capacidade de fazer com que determinados valores sejam percebidos como naturais, as plataformas produzem não uma hegemonia relativamente unificada, mas múltiplos polos concorrentes de influência mediados por algoritmos. Cada comunidade digital passa a operar dentro de um universo semântico parcialmente fechado, reforçado por sistemas de recomendação que intensificam pertencimento identitário e confirmação ideológica.


A consequência decisiva é epistemológica, não apenas comunicacional: o algoritmo deixa de ser mero intermediário técnico e assume função epistemológica. Ele organiza aquilo que pode ser visto, discutido, legitimado e emocionalmente intensificado. Não existe mais um único espírito do tempo amplamente compartilhado, mas múltiplos regimes concorrentes de percepção social, cada qual sustentado por arquiteturas específicas de visibilidade.


Se cada micro-hegemonia é um regime concorrente de percepção, então cada micro-hegemonia é um observador — e cada observador traça suas próprias linhas entre os mesmos pontos de luz.

É aqui que a hipótese anterior encontra a necessidade de uma estrutura formal. Cada observador produz constelações distintas a partir de um céu de fatos apenas parcialmente compartilhado. A Constelação Política é a tentativa de dar forma calculável a essa afirmação.


Por que isso é uma questão moral, e não apenas descritiva


Habermas sustentou que democracias modernas dependem de espaços compartilhados de debate racional orientados por argumentação. A lógica algorítmica tensiona esse modelo diretamente, porque privilegia intensidade emocional, velocidade e engajamento, com frequência em detrimento da deliberação — e o resultado é uma crise estrutural da racionalidade pública, na qual a sociedade perde as referências epistemológicas compartilhadas capazes de sustentar consensos mínimos.


Convém ser preciso quanto ao mecanismo, porque a precisão aqui é o que separa um argumento de uma acusação. Emoções de alta intensidade — indignação, medo, pertencimento, ansiedade — recebem prioridade algorítmica porque aumentam retenção e compartilhamento. Assim, a arquitetura técnica das plataformas favorece estruturalmente a polarização, a simplificação narrativa e a radicalização afetiva. O ponto não depende de atribuir intenção a ninguém: depende apenas de reconhecer o que a otimização por engajamento otimiza. Agrupar por afinidade emocional não é o mesmo que agrupar por proximidade programática, e é a primeira operação que os sistemas executam, não a segunda.


Daí decorre a consequência concreta para o cidadão comum: ele passa a acreditar que existem apenas dois campos, cada um internamente coeso, e que sua tarefa é escolher um pacote fechado de posições — não avaliar, tema a tema, o que de fato lhe interessa. A régua de 1789 sobrevive não por virtude teórica, mas porque é a forma mais compacta de organizar afeto em escala.


Esta é uma moldura de escala civilizacional, e o que se entrega hoje é um protótipo navegável no navegador. A desproporção entre as duas coisas é real e está examinada em detalhe na autocrítica.


III. Eysenck, a ferradura, e o limite da correção pontual


A primeira tentativa relevante de cruzar o eixo esquerda-direita com uma segunda dimensão não veio de Faye, mas de Hans Eysenck, quase uma década antes. Em The Psychology of Politics, de 1954, Eysenck propôs um segundo eixo — que chamou de tough-minded contra tender-minded — e, a partir de análise fatorial de questionários, argumentou que fascistas e comunistas pontuavam de forma semelhante em dureza mental e submissão autoritária, diferindo dos centristas.


Só depois, no início da década de 1970, o filósofo francês Jean-Pierre Faye popularizou a metáfora visual da ferradura, em Langages totalitaires: em vez de afastar-se indefinidamente, os extremos se aproximam nas pontas. Convém não confundi-lo com Guillaume Faye, autor de outra tradição política, com quem não guarda relação. E mesmo essa atribuição é discutida por historiadores da ideia: o esquema da ferradura, Hufeisen em alemão, já circulava no discurso político alemão desde os anos 1930, ligado a diagramas do período da República de Weimar. O texto de Faye está mais reportando um esquema preexistente do que inventando um novo


De Eysenck a Faye, o que se repete é uma correção real, porém parcial: ambos ainda assumem uma linha, ou um eixo, como estrutura de base, apenas cruzada ou dobrada. O problema de fundo — um eixo único, imposto de fora — permanece intacto. Mudou-se a curvatura, ou somou-se uma dimensão; não a lógica.


Registre-se, em favor da ferradura, que ela não permaneceu apenas metáfora: existem hoje modelos que projetam posições sobre o círculo unitário justamente para captar a convergência comportamental entre extremos e corrigir as distorções de projetar comportamento político num espaço linear. A intuição de Faye ganhou formalização. O que ela não ganhou foi liberdade em relação ao eixo.


IV. Os eixos múltiplos e o limite da visualização


O ativista libertário David Nolan publicou seu diagrama de dois eixos — liberdade econômica cruzada com liberdade pessoal — em 1971, ainda na mesma década de Faye. Trinta anos depois, em 2001, surgiu a Bússola Política, cruzando um eixo econômico com um eixo autoritário-libertário em formato de sítio interativo; sua criação é atribuída ao jornalista Wayne Brittenden, embora o próprio sítio não identifique autoria. Entre um e outro há quase três décadas, o que desaconselha citá-los lado a lado como se fossem contemporâneos.


A pergunta natural é a mesma para os dois: por que parar em duas dimensões? Aumentar eixos não resolve o problema cartesiano original; apenas o disfarça em mais dimensões, porque alguém continua decidindo, de fora, o que cada eixo significa.


E há um limite técnico que se revela mais severo do que a intuição sugere. Em espaços de muitas dimensões, as distâncias entre pontos tendem a se concentrar: a razão entre o vizinho mais próximo e o mais distante aproxima-se de um. O problema não é que cada ponto fique isolado dos demais; é que todos passam a ficar aproximadamente à mesma distância de todos, e a própria noção de proximidade perde poder de discriminação. É a maldição da dimensionalidade na sua forma mais desfavorável a qualquer modelo temático.


Há um ponto além do qual mais dimensões produzem um céu em que nada está perto de nada.

A advertência vale contra este modelo tanto quanto contra os outros, e fica registrada como limite de crescimento: acrescentar temas indefinidamente não aumenta a informação disponível, degrada-a.


V. A virada: gravidade sem sol, espaço sem eixo


A virada conceitual aconteceu quando a pergunta deixou de ser “quantos eixos precisamos” e passou a ser outra: e se não estivéssemos no plano de um gráfico, mas no espaço — onde não há um sol único puxando todos os corpos para um centro, apenas corpos entre si, aproximando-se ou afastando-se por afinidade de pensamento?


A formulação, quando apareceu, tinha a qualidade das ideias que parecem óbvias depois de ditas: não um cubo político em vez de uma linha, mas um espaço puramente relacional, onde a única informação de entrada é a proximidade entre posições, e onde a geometria — inclusive a existência ou não de eixos — é consequência dos dados, não imposição prévia sobre eles.


A descoberta que reorganizou o projeto


Foi ao procurar quem já houvesse formulado algo assim que o projeto encontrou seu momento mais instrutivo. A resposta é: praticamente todos, e há muito tempo.


A classe de técnicas cujo objetivo é localizar objetos num espaço de baixa dimensão de modo que as distâncias entre os pontos correspondam a dissimilaridades observadas foi formulada por Warren Torgerson em 1952, com precursor no procedimento de Young e Householder de 1938. A entrada é apenas uma matriz de proximidades; a geometria é saída, não entrada. Em 1962, Roger Shepard tratou o problema com função de distância desconhecida — isto é, sem estipular previamente a métrica do espaço. E em 1964 Joseph Kruskal converteu a intuição em método, definindo uma função de perda explícita, o stress, que transformou a pergunta “quantas dimensões?” de questão doutrinária em questão empírica: pare onde o stress deixar de cair de forma significativa.


Mas o achado que mais importa é de 1970. Naquele ano, J. Douglas Carroll e Jih-Jie Chang publicaram um modelo de diferenças individuais em que se postula um espaço comum de estímulos, compartilhado por todos, e em que cada indivíduo pondera de modo diferente cada uma das dimensões desse espaço. Os pesos individuais distorcem sistematicamente o espaço comum e produzem, para cada pessoa, o que a literatura chama de espaço privado. As distâncias no espaço comum são euclidianas ponderadas; nos espaços privados, euclidianas simples.


Essa é, com exatidão, a arquitetura matemática da Constelação Política. Não uma analogia: a mesma classe de modelo.

Um conjunto de partidos num espaço comum de dimensões temáticas; um conjunto de pesos por observador; um céu privado como resultado. Reconhecê-lo custa a reivindicação de originalidade formal, e a troca é vantajosa em três frentes: uma métrica declarada, um regime de falseabilidade, e mais de cinquenta anos de literatura sobre as propriedades e os limites do modelo.


Sobretudo, permite enunciar com precisão o que resta de próprio — e o que resta é uma inversão estreita o suficiente para ser verificada. No modelo de 1970, os pesos são estimados por um pesquisador, a partir de julgamentos coletados do sujeito, para explicar por que pessoas diferentes percebem o mesmo conjunto de estímulos de modo diferente; o espaço privado é um achado sobre o sujeito, e vai para o pesquisador. Aqui, os pesos são declarados pelo próprio sujeito, e o espaço privado é o produto que lhe é entregue. A operação é a mesma. A direção é inversa.


A linhagem aplicada: os instrumentos que já entregam o cálculo ao cidadão


Há uma segunda linhagem, e ela não é metodológica: é de aplicação. Seu fundamento teórico é o modelo de proximidade formulado por Anthony Downs em 1957, segundo o qual o eleitor tende a preferir a alternativa mais próxima de suas próprias posições. Sobre esse fundamento construiu-se, a partir dos anos noventa, uma família de instrumentos que informa ao usuário sua proximidade em relação às posições dos partidos, indicando quais estão mais próximos de suas preferências declaradas.


É preciso dizer com clareza o que isso significa para este projeto. A maioria desses instrumentos permite ao usuário aumentar o peso dos temas que considera especialmente importantes e reduzir o daqueles que lhe são indiferentes, com essa ponderação incorporada ao cálculo da distância. O mecanismo é, portanto, o mesmo aqui descrito: posições declaradas pelo próprio observador, pesos declarados pelo próprio observador, distância ponderada como resultado, entregue a quem respondeu. E a escala não é experimental: um único desses instrumentos, na Alemanha, foi utilizado por mais de vinte e um milhões de pessoas numa eleição federal; na Holanda, dois deles somaram cerca de seis milhões e oitocentos e cinquenta mil usuários apenas na semana anterior a um pleito nacional.


A inversão de destinatário, tomada isoladamente, não é portanto uma contribuição deste modelo. Reconhecê-lo é obrigação elementar, e o que sobra depois do reconhecimento é examinado na seção XI, onde também se registram as críticas que essa família de instrumentos recebe e que se aplicam integralmente a este. (autocrítica)


Sistema

País

Endereço

Quem mantém

Wahl-O-Mat

Alemanha

Bundeszentrale für politische Bildung — órgão público federal de educação política

StemWijzer

Holanda

ProDemos ("Casa da democracia e do Estado de direito")

Kieskompas

Holanda

Kieskompas B.V., ligado à Vrije Universiteit Amsterdam

smartvote

Suíça

https://www.smartvote.ch (tem versão em inglês em /en)

Politools


O observador que distorce o mapa


Um segundo encontro confirmou que a intuição central não era apenas defensável, mas mensurável. Em artigo de 1977, John Aldrich e Richard McKelvey introduziram método para corrigir o que se chama funcionamento diferencial de itens: o fato de que respondentes percebem e utilizam a mesma escala ideológica de maneiras fundamentalmente diferentes, produzindo posicionamentos divergentes dos mesmos estímulos. Há um subcaso que é, palavra por palavra, uma das propriedades deste modelo, e chama-se viés de racionalização: a tendência de deslocar para longe de si as posições dos partidos que se rejeita e para perto de si as dos partidos que se prefere.


A propriedade que este ensaio chama de observador que traça as linhas não é, portanto, licença poética importada da astronomia. É um fenômeno medido há quase cinquenta anos, e a hipótese das micro-hegemonias ganha com isso algo mais valioso do que uma metáfora: ganha um método pelo qual poderia ser testada.


A tradição relacional


A recusa de uma hierarquia externa ao fenômeno não é, tampouco, invenção recente. A relacionalidade é o centro da sociologia de Pierre Bourdieu, a ponto de ele preferir falar não de uma teoria, mas de um sistema de conceitos relacionais, e de sustentar que o real é relacional; a distinção, para ele, não é outra coisa que diferença, intervalo, traço distintivo — propriedade que existe apenas em e por sua relação com outras propriedades.


O que importa é o método. Em A Distinção, de 1979, Bourdieu aplicou análise de correspondências múltiplas a dados de renda, ocupação e práticas culturais, posicionando indivíduos, ocupações e atividades num plano, e só então interpretou os eixos encontrados: a primeira dimensão como volume total de capital, a segunda como contraste entre capital econômico e capital cultural. Observe-se a ordem lógica: os eixos não foram estipulados e depois preenchidos com dados; foram derivados dos dados e depois interpretados. É o inverso exato da bússola política, e foi feito com dados quarenta e sete anos antes deste ensaio.


A honestidade obriga a registrar a crítica que a linhagem carrega, porque ela se aplicará também a este modelo: sustenta-se que Bourdieu privilegia as relações entre posições em detrimento da substância dessas posições. Um modelo que só informa distância corre o risco de terminar mudo sobre o conteúdo daquilo que separa. É uma vulnerabilidade real, e não há por que esconder que é compartilhada. (autocrítica)


Sobre Benjamin, Adorno e Habermas


Resta uma coincidência de vocabulário que merece ser nomeada em vez de escondida. Walter Benjamin propôs, em obra concluída em 1925 e publicada em 1928, que as ideias estão para os objetos assim como as constelações estão para as estrelas; Theodor Adorno levou a imagem adiante como método explícito na Dialética Negativa, dispondo conceitos ao redor de um objeto sem forçar síntese classificatória; Jürgen Habermas usou o termo em sentido político em Die postnationale Konstellation, de 1998.


A menção existe por desambiguação, e não por herança. A Konstellation de Frankfurt é uma metáfora epistemológica sobre como conceitos abstratos se relacionam em prosa filosófica; este modelo calcula distâncias entre posições reais ao redor de um observador situado. O parentesco de espírito — recusar uma hierarquia imposta de fora — é genuíno, mas o parentesco metodológico é com Torgerson, Carroll, Aldrich e Bourdieu. Quem operou a recusa com dados foi a sociologia relacional; a filosofia alemã ofereceu a imagem, e é justo dizer apenas isso.


VI. Por que o eixo único descreve bem um mundo que terminou


Há uma objeção séria a enfrentar, e ela não vem da filosofia: vem dos dados. Quando se estimam posições de parlamentares a partir de votações nominais, sem impor eixo algum, o eixo esquerda-direita reaparece por conta própria. No Congresso dos Estados Unidos, mostrou-se que as votações podem ser explicadas por não mais de duas dimensões ao longo de quase toda a história do país, com colapso recente numa única dimensão. O eixo não sobrevive apenas por inércia de 1789: em certos contextos, ele emerge dos dados quando ninguém o impõe.


A resposta não é negar o achado, e sim observar o que exatamente ele descreve — porque o que ele descreve é precisamente o mundo cuja dissolução o Zeitgeist Algorítmico documenta.


Primeiro, esses achados medem comportamento de voto de elites parlamentares operando sob disciplina de bancada e cálculo de coalizão. Isso não é proximidade de conteúdo percebida por cidadãos, e a distinção não é retórica: um parlamentar pode votar com o governo por aritmética de coalizão e divergir dele na maioria dos temas que interessam a quem o elegeu. A linha capta o voto; não capta o que o eleitor está tentando descobrir. O alinhamento efetivo no legislativo e a posição percebida pelo eleitorado são grandezas distintas, e é no intervalo entre as duas que este modelo opera.


Segundo, e mais importante: a unidimensionalidade é a assinatura estatística de um regime de mediação simbólica centralizada. Ela descreve sociedades em que poucos emissores organizavam a percepção coletiva, em que existia uma narrativa cultural dominante suficientemente forte para alinhar posições num único contínuo, e em que o consenso se sedimentava lentamente através de instituições estáveis. Quanto mais centralizada a mediação, menos dimensões são necessárias para descrever o resultado — e isso não é coincidência, é consequência.


O que a hipótese do Zeitgeist Algorítmico sustenta é que esse regime terminou. A hegemonia cultural atomizou-se em micro-hegemonias concorrentes; a esfera pública fragmentou-se em microesferas sem referências comuns estáveis; as narrativas legitimadoras unificadoras colapsaram em múltiplos regimes de verdade mediados algoritmicamente. Um instrumento calibrado para medir o mundo anterior continuará funcionando bem onde restam suas condições — dentro de um plenário, sob disciplina partidária, com pauta controlada — e continuará cego para aquilo que se organizou fora dali.


O eixo único não é o adversário deste modelo. É a sua linha de base.

A pergunta que este ensaio faz não é se a linha jamais descreveu algo bem; é o que resta dela quando a mediação que a produzia desapareceu, e quando quem observa o céu político não é mais um público relativamente unificado, mas alguém dentro de um regime de percepção entre muitos.


Há, inclusive, um caminho empírico já aberto para investigar isso, e ele não passa por votações nominais. Dados produzidos por instrumentos de proximidade respondidos por cidadãos foram usados, em trabalho de 2012, para explorar a dimensionalidade do espaço de políticas em quatro países, entre eles o Brasil. Ou seja: a pergunta sobre quantas dimensões descrevem o espaço político percebido pode ser atacada com o mesmo tipo de dado que este modelo coleta — e deve ser, antes que qualquer afirmação sobre pluralidade dimensional brasileira seja feita a partir daqui.


Convém não converter isso em afirmação empírica maior do que a evidência permite. Que o espaço político percebido hoje seja irredutível a uma dimensão é hipótese, não resultado demonstrado. A diferença entre este texto e uma metáfora é que a hipótese, aqui, está formulada de modo a poder ser testada — e a seção seguinte declara com que instrumento.


VII. Definição formal: sete temas, pesos do observador, origem no observador


A concessão, primeiro


A crítica mais séria que este modelo recebe é também a mais simples de formular: por baixo da metáfora estelar, cada partido é posicionado por sete números — economia, costumes, instituições, política externa, segurança, meio ambiente e tecnologia —, cada um variando de menos cem a mais cem. Isso é, tecnicamente, um sistema cartesiano de sete dimensões. O modelo não eliminou o eixo; multiplicou-o por sete.


A crítica é correta e deve ser aceita sem atenuação. A escolha dos sete temas é uma imposição prévia sobre os dados, do mesmo tipo que Nolan fez em 1971 ao eleger dois vértices. E o número não tem justificativa teórica própria: sete foi o que pareceu cobrir bem o debate público brasileiro no momento em que o protótipo foi construído — escolha pragmática, tão arbitrária quanto a de Nolan por dois. (autocrítica)


A formulação precisa, portanto, é esta: o que este modelo não impõe de fora não são as variáveis. São a origem e a ponderação. As dimensões são declaradas por quem constrói o modelo, e isso é uma limitação assumida. O que pertence ao observador é onde fica o zero e quanto pesa cada tema. Um eixo cartesiano tradicional tem origem definida de antemão — o zero da régua já está lá antes de qualquer dado entrar. Aqui, cada tema é um vértice sem centro até que uma pessoa concreta se posicione; só então ele se torna coordenada real, e apenas para aquele observador, naquele momento.


A métrica


Os trinta partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral ocupam um espaço comum de sete dimensões. O observador ocupa uma posição nesse mesmo espaço, determinada por suas respostas ao Sextante Estelar, e declara um peso para cada tema conforme a importância que lhe atribui. A distância entre o observador e cada partido é uma distância euclidiana ponderada:


d(o, p) = √ [ Σ w · (o − p)² ] , somando os sete temas


onde o é a posição do observador, p a posição do partido e w o peso que o observador atribuiu àquele tema. Quando todos os pesos são iguais, a expressão reduz-se à distância euclidiana simples: o céu igualmente ponderado é apenas um caso particular do céu de cada pessoa. A normalização dos pesos e o tratamento de temas com peso nulo integram a documentação do experimento, para que o cálculo seja reproduzível por terceiros.


Declarar a métrica tem uma consequência que interessa mais do que a precisão: torna o modelo falseável. É possível verificar se as distâncias calculadas predizem intenção de voto declarada, ou concordância temática medida por outros instrumentos, melhor ou pior do que a autolocalização numa escala esquerda-direita. Enquanto a distância permanece metáfora, não há como o modelo errar — e um modelo que não pode errar não informa nada.


Cabe registrar, aqui e não em nota, que ponderar distâncias por importância declarada não é procedimento inédito: é prática corrente nos instrumentos de proximidade descritos na seção V, em que marcar um tema como importante costuma dobrar seu efeito no cálculo, e marcá-lo como indiferente costuma reduzi-lo à metade. O que difere neste modelo não é a ponderação, é a saída. Aqueles instrumentos devolvem um grau de compatibilidade — um número, um ranking, ou uma projeção em eixos predefinidos. Aqui, a saída é uma configuração: além da distância entre o observador e cada partido, alteram-se as distâncias dos partidos entre si, porque todas são recalculadas sob a mesma ponderação. O usuário não recebe apenas a resposta sobre de quem está mais perto; recebe a forma que o campo assume quando medido pelos critérios dele.


Essa é uma diferença de representação, e é menor do que a diferença que este ensaio chegou a supor que tinha. Também é verificável, o que a torna preferível a uma alegação maior e vaga.


A natureza dos dados


Os dados de posição dos partidos usados no experimento são ilustrativos, aproximados a partir de literatura de ciência política sobre o sistema partidário brasileiro. Não constituem medição validada, e o experimento não deve ser lido como tal. Uma versão de produção substituiria essas aproximações por fontes verificáveis: o índice Rile do Manifesto Project, levantamentos de especialistas, ou votações nominais recentes desagregadas por tema.


Duas consequências ficam registradas. A primeira é que o achado de que nenhum partido brasileiro registrado cruza o limiar de extrema-direita segundo a fórmula simétrica adotada é resultado real do cálculo, mas apoiado em aproximações parciais, e não deve circular como conclusão empírica. A segunda é que a cobertura de votações legislativas por tema é ainda fragmentária, o que limita qualquer afirmação sobre a posição de um partido em tema específico. (autocrítica)


A direção de desenvolvimento


Se a autoridade sobre a origem do espaço pertence a quem observa, a autoridade sobre quais dimensões existem nesse espaço deveria, em princípio, pertencer a ele também.


O protótipo atual não permite isso: a lista de sete temas é herdada, não escolhida. Essa é a incoerência remanescente do modelo, e a saída não é encontrar o número certo de temas — é permitir que cada observador monte a própria configuração de vértices. Fica registrado como limitação de implementação e direção de trabalho, não como decisão encerrada. (autocrítica)


VIII. As cinco propriedades


Descritas as dimensões e a métrica, cinco propriedades distinguem o modelo tanto da linha cartesiana quanto da ferradura e dos diagramas de eixos fixos.


Fotografia temporal. O modelo não descreve uma estrutura permanente, mas um recorte válido para o instante em que é observado. Refeita a observação, com outros pesos ou outros dados, a constelação se reconfigura.


Distância aparente. A proximidade observada entre duas posições nunca é absoluta — como duas estrelas vizinhas no céu noturno e separadas por distâncias reais imensas. Duas posições podem parecer próximas apenas porque o ângulo de observação não revela a dimensão em que divergem.


O observador que traça as linhas. A figura da constelação não existe objetivamente entre os pontos: é construída por quem observa. Esta propriedade exige, porém, uma distinção em três níveis, sem a qual o modelo perde o direito de criticar qualquer observação alheia — e é o assunto da seção IX.


Magnitude desigual. Nem todo ponto atrai com a mesma força. Alcance, engajamento e intensidade emocional funcionam como o brilho de uma estrela — e brilho não é proximidade: a posição mais visível do céu político não é, por isso, a mais próxima de quem a vê.


Sobreposição de pertencimento. Uma mesma posição pode integrar múltiplas constelações simultaneamente, uma por tema em disputa. O que na linha única aparece como contradição é, aqui, condição normal.


IX. A função cívica: o ponto cego medido


Um modelo pode ser conceitualmente elegante e ainda assim não responder à pergunta mais básica: para que serve, na prática, para quem não é cientista político nem desenvolvedor de software? A resposta começa onde o Zeitgeist Algorítmico terminou.


Três níveis, para não perder o direito de criticar


Se toda constelação é obra de um observador, então a constelação desenhada por uma plataforma é tão legítima quanto a de qualquer pessoa, e a crítica ao algoritmo desaba por contradição interna. Falar de proximidade real de posição e, ao mesmo tempo, da inexistência objetiva da constelação exige separar três níveis.


Há, primeiro, similaridade de conteúdo entre posições: dois programas concordam ou divergem em cada tema, e isso é verificável por documentos, votos e declarações, independentemente de quem observe. Há, segundo, proximidade aparente, que depende do ponto de observação e da ponderação — e essa varia legitimamente de pessoa para pessoa, porque pessoas diferentes atribuem importância diferente aos mesmos temas. Há, terceiro, a questão de quem define o ponto de observação.


A crítica ao mapa algorítmico não é uma crítica de acurácia. É uma crítica de autonomia.

O problema não é que a plataforma veja errado: é que o ponto de vista a partir do qual ela desenha não foi escolhido por quem recebe o desenho, e os pesos que ela aplica não são os que o cidadão declararia se lhe perguntassem. A ponderação por engajamento é legítima para os fins de quem a aplica. Ela apenas não é a do cidadão — e ele não foi consultado.


O dado que justifica o instrumento


Há razão empírica, e não apenas normativa, para querer devolver o instrumento a quem é medido por ele. Ela vem da linhagem de correção perceptiva iniciada em 1977 e consolidada em implementação bayesiana publicada em 2015.


O funcionamento diferencial de itens enviesa as autolocalizações em escala ideológica de modo a subestimar a polarização real do eleitorado. Corrigido o viés, quarenta e quatro por cento dos respondentes aparecem como mais extremos do que qualquer dos dois candidatos presidenciais em disputa; e entre os autodeclarados moderados, trinta e quatro por cento são classificados como extremos com base em padrões de voto — fenômeno descrito na literatura como moderação ilusória. Ao mesmo tempo, as percepções que os cidadãos têm da posição dos outros, uma vez corrigidas, correlacionam-se fortemente com o comportamento efetivo.


O cidadão percebe razoavelmente bem onde estão os outros. Erra de modo sistemático sobre onde ele mesmo está. A autopercepção é o ponto cego.

E é justamente o que nenhum instrumento existente lhe devolve. O exemplo concreto vale mais do que a estatística. Em 2012, nos Estados Unidos, quase um terço dos respondentes que votaram por Barack Obama classificaram tanto ele quanto a si mesmos como moderados ou ligeiramente liberais, enquanto cerca de sessenta por cento dos eleitores de Mitt Romney colocaram Obama na posição mais à esquerda possível da escala. O mesmo objeto, dois céus diferentes — e, em ambos, uma autolocalização mais confortável do que o voto sustentava. (Hare, Armstrong, Bakker, Carroll e Poole, American Journal of Political Science, 2015, com dados do American National Election Studies 2004–2012 e do Cooperative Congressional Election Study 2010)


A evidência de que o instrumento funciona, e a de que ele não alcança quem deveria


O achado da moderação ilusória demonstra a existência do ponto cego. Não demonstra, por si, que entregar um instrumento de autolocalização o corrija — são proposições distintas, e a passagem entre elas precisa de evidência própria. Ela existe, e vem dos instrumentos de proximidade já mencionados. (autocrítica)


Observou-se que usuários com escolaridade média ou baixa ganham consciência ampliada das posições partidárias e das diferenças entre partidos, e que esse efeito de aprendizado eleva a probabilidade de mobilização, de reconsideração da escolha ou de reforço de uma decisão já tomada. Observou-se também que a irritação provocada quando o partido preferido não aparece no topo do resultado pode levar à mudança efetiva de voto. Isso é, em termos concretos, o confronto com a autoimagem política acontecendo — e é a melhor evidência disponível de que instrumentos deste tipo produzem algo mais do que entretenimento cívico.


A mesma literatura, porém, impõe uma correção de expectativa que este ensaio não pode omitir: tais instrumentos são utilizados desproporcionalmente por pessoas mais jovens, com mais escolaridade formal e com interesse político prévio mais elevado. Se o padrão se repetir aqui, o instrumento alcançará preferencialmente quem já examina suas próprias posições, e não quem aceita pacotes fechados sem revisá-los. A função cívica permanece legítima, mas seu alcance real é mais estreito do que a formulação generosa sugere, e é honesto dizê-lo antes que alguém o diga. (autocrítica)


As duas funções


A primeira é diagnóstica. Ao dissolver o pacote fechado em sete temas ponderados por quem observa, o modelo revela o que a linha única esconde: duas pessoas podem se considerar rivais e estar próximas em quatro dos sete temas; duas pessoas do mesmo lado podem divergir drasticamente no tema que mais importa a uma delas. E, sobretudo, um cidadão pode descobrir que o partido mais próximo de suas posições ponderadas não é aquele cujo rótulo ele carrega. Isso é informação real, não retórica — e hoje ela só existe fragmentada, dentro de sistemas que a calculam a respeito dele, nunca visível para quem é observado por eles.


A segunda é de proteção cognitiva. Se a constelação que alguém vê é desenhada por quem observa — e hoje, na prática, quem observa em escala é o algoritmo —, então saber disso já é uma defesa. Reconhecer que a proposição segundo a qual esquerda e direita são blocos opostos e internamente uniformes é uma linha desenhada por um observador específico, sob uma ponderação específica, é o primeiro passo para deixar de tratá-la como fato da natureza. E o achado da moderação ilusória mostra que a autoimagem política é construída — o que significa que pode ser examinada.


Convém não prometer mais do que isso. Nenhum modelo devolve autonomia de julgamento a quem não queira exercê-la, e a afirmação de que este devolve alguma coisa é uma aposta normativa, não um resultado comprovado. O que se oferece é a perspectiva própria — a posição a partir da qual cada pessoa observa o céu político — a quem já pretende decidir tema a tema, em vez de aceitar o pacote fechado que a última rede social visitada decidiu mostrar.


X. O Sextante Estelar: referencial local, não eixo global


Um modelo espacial só é útil se quem o observa também conseguir se localizar dentro dele. A solução não é reintroduzir eixos, mas importar da própria astronomia a ferramenta que resolve esse problema há milênios: a navegação por estrelas-guia.


O efeito pretendido é dar ao leitor uma experiência quase física de se materializar dentro do próprio modelo, como um astronauta suspenso num campo de estrelas.

Isto suscita uma objeção imediata e legítima: uma estrela-guia é um ponto de referência fixo, e o modelo acaba de recusar pontos de referência fixos. A distinção existe e precisa ser argumentada, não pressuposta. Um referencial local de navegação e um referencial global de classificação diferem em três aspectos. O primeiro é plural: qualquer conjunto suficiente de estrelas serve, e navegadores distintos podem usar conjuntos distintos para chegar ao mesmo lugar. O segundo é instrumental: serve para responder onde estou em relação a isto, não o que isto é. O terceiro é revisável sem custo: trocar de estrela-guia não reorganiza o céu, apenas o modo de olhá-lo. Um eixo global de classificação não tem nenhuma dessas propriedades — é único, é atributivo, e trocá-lo redefine todos os objetos que classificava.


Nenhum navegador precisa compreender a estrutura tridimensional completa do universo para se orientar no oceano; basta reconhecer algumas estrelas e posicionar-se por proximidade relativa a elas. É essa capacidade de autolocalização concreta, preservando a fluidez espacial do modelo, que transforma a Constelação Política de metáfora elegante em instrumento com função real para quem a lê.


A dificuldade que o instrumento precisa enfrentar


Há uma objeção que a honestidade obriga a antecipar, e ela é séria. Os métodos de correção de percepção desenvolvidos nesta linhagem apresentam viés na direção de resultados unidimensionais, e esse viés se acentua justamente para respondentes de baixa informação política — que são, por definição, o público mais numeroso de qualquer instrumento cívico de acesso aberto. Um sextante destinado a todos tende a devolver, a quem mais precisa dele, um céu mais achatado do que o real. (autocrítica)


A literatura oferece caminhos: a modelagem explícita do viés de racionalização e o uso de vinhetas de ancoragem, que descrevem programas fictícios para calibrar a escala sem supor que todos os respondentes percebam um mesmo ator de modo idêntico. Há também um requisito de identificação relevante para o desenho do questionário, e não meramente técnico: são necessários pelo menos três estímulos externos para que a correção seja identificável. Incorporar isso ao Sextante é tarefa pendente, e fica registrada como tal.


XI. O que este modelo não pretende ser


A Constelação Política não pretende substituir os modelos de estimação de posições como ferramenta de mensuração científica. Não compete com estimação de pontos ideais a partir de votações nominais, nem com escalonamento a partir de textos, nem com correção bayesiana de percepções em levantamentos amostrais. Esses instrumentos são melhores do que este naquilo que fazem, e este modelo depende deles para obter os dados de que precisa.


Também não pretende ser uma aplicação de aconselhamento eleitoral, e a distinção importa porque o parentesco é evidente. Aqueles instrumentos existem para responder a uma pergunta prática — em quem votar — e sua recomendação implícita é votar no mais próximo. Este modelo não recomenda voto, não se organiza em torno de um pleito e não trata a menor distância como conselho. Seu objeto é a estrutura do campo e a dependência dessa estrutura em relação a quem observa. São finalidades diferentes operando sobre mecanismo semelhante, e confundi-las prejudicaria as duas.


Isso não isenta este modelo das críticas que aquela família recebe, e todas se aplicam. Instrumentos de proximidade desconsideram credibilidade, responsividade e competência dos atores; tratam posições declaradas, e não resultados entregues, como o que importa; e são vulneráveis à manipulação estratégica, porque um partido que conhece o instrumento pode declarar posições calculadas para melhorar sua colocação. A última vulnerabilidade é séria aqui: quanto mais um modelo deste tipo circula, mais vantajoso se torna, para quem é medido por ele, apresentar-se de modo a ser bem medido. Nenhuma solução para isso está implementada. (autocrítica)


Também não pretende ser um teste de identidade política, nem produzir veredicto sobre quem alguém é. A saída do modelo é uma lista ordenada de distâncias sob uma ponderação declarada, válida para o momento da observação. Trocada a ponderação, troca-se a ordem — e isso não é defeito: é o que o instrumento se propõe a mostrar.


O que ele oferece é uma correção de destinatário. A necessidade de eixos fixos não é exigência da realidade política, e quem demonstrou isso primeiro, com dados, foi a tradição citada na seção V. O que ninguém dessa tradição fez foi entregar o resultado a quem estava sendo medido.


XII. Fechamento


Durante mais de setenta anos, o espaço relacional da política foi calculado com competência crescente. Psicometristas construíram os métodos; cientistas políticos estimaram as posições de legisladores; plataformas estimaram as posições de usuários; campanhas estimaram as posições de eleitores. E, em algum momento dos anos noventa, alguém teve a boa ideia de devolver parte desse cálculo a quem estava sendo medido — foi assim que nasceram os instrumentos de proximidade eleitoral, e este ensaio chegou a supor que essa devolução ainda não tivesse ocorrido.


Ela ocorreu, e o que permanece por fazer é mais modesto e mais preciso: aqueles instrumentos devolvem uma resposta, não uma configuração. Dizem de quem o cidadão está mais perto; não mostram a forma que o campo assume quando visto de onde ele está, nem como as posições se reorganizam entre si sob os critérios que ele declarou.


A pergunta que ficou sem instrumento não é quem me representa melhor, é como o céu se arruma quando eu sou o ponto de observação.

Ao mesmo tempo, o espírito do tempo deixou de ser uma abstração histórica difusa e passou a constituir um processo tecnicamente mediado, continuamente recalculado por sistemas que modulam percepção, emoção e visibilidade em escala planetária. A humanidade tornou-se, de uma vez, sujeito, observadora e objeto operacional da própria formação cultural. Nunca teve tanto acesso ao espetáculo de si mesma sendo formada — e nunca teve tão pouco acesso ao instrumento que lhe permitiria medir onde, exatamente, ela ficou.


A Constelação Política é a tentativa de fechar essa lacuna com meios modestos: um modelo de 1970, uma métrica declarada, dados ainda imperfeitos e uma diferença de representação que cabe numa frase. Não inventa o espaço relacional, não inventa a ponderação por importância, não inventa a entrega do cálculo ao cidadão. Faz uma coisa só, e é a única que ainda não estava feita: mostra o campo político como configuração, e coloca na origem dessa configuração a pessoa que está olhando.


Se o espírito do tempo contemporâneo é continuamente recalculado, então quem é descrito por esse cálculo deveria poder executá-lo por conta própria. Não uma estrutura fixa a ser preenchida por dados, mas a fotografia legítima de um céu que nunca para de se mover, e que muda de forma segundo o observador que o contempla — tirada, desta vez, pela pessoa que está dentro dele.

 

Experimente o modelo


O universo 3D com os partidos brasileiros está em politicalconstellation.org/brasil/experimento.html. Ajuste o peso dos sete temas, responda ao Sextante Estelar e observe o céu se reorganizar. Os dados de posição são ilustrativos, aproximados a partir de literatura de ciência política: nenhum resultado deve ser citado como achado empírico.


O projeto completo — ensaio, autocrítica, textos de origem e os modelos de nove países em sete idiomas — fica em constelacaopolitica.org.


Leia também a autocrítica. Este ensaio concede, no próprio corpo, as fragilidades que reconhece. O que permanece sem solução depois dessas concessões está reunido em forma de passivo declarado em Autocrítica: os limites reais da Constelação Política — inclusive a queda de uma alegação que já foi central neste projeto.


Nota metodológica

Este artigo foi produzido em regime de Escrita de Arremate — metodologia de produção intelectual baseada na interação entre pensamento humano, sistemas de inteligência artificial e revisão crítica autoral. O autor não terceiriza a reflexão à máquina, mas utiliza estruturas algorítmicas como instrumentos de expansão cognitiva, organização conceitual e aceleração hermenêutica, realizando posteriormente o arremate intelectual, filosófico e argumentativo do texto.


Nota sobre o estado deste texto

Este ensaio é obra em construção, e o registro das próprias fragilidades integra o método, não o compensa. As limitações reconhecidas ao longo do texto — a arbitrariedade da escolha dos sete temas, a natureza ilustrativa dos dados, o viés unidimensional dos métodos de correção perceptiva aplicados a respondentes de baixa informação, e a impossibilidade atual de o leitor definir suas próprias dimensões — são direções de trabalho abertas, não decisões encerradas. A crítica externa é parte do processo, e é bem-vinda com o mesmo espírito com que este texto examina a si mesmo.


Nota sobre os dados

Os dados de posição partidária empregados no experimento interativo são ilustrativos, aproximados a partir de literatura de ciência política sobre o sistema partidário brasileiro, e não constituem medição validada. Nenhum resultado do experimento deve ser citado como achado empírico.


Referências

Textos-base do projeto

●        BECKHAUSER, L. A. O Zeitgeist Algorítmico. OAB Plural, 26 de maio de 2026.

●        BECKHAUSER, L. A. O Zeitgeist Algorítmico e a Visibilidade da Formação Cultural. OAB Plural, 26 de maio de 2026.


 Produzido sob os Termos de Arremate v1.0 — escritadearremate.org/termos/1.0

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