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O ADVOGADO É UM DEV?

Foto do escritor: Luís André Beckhauser
Luís André Beckhauser
31 de ago.
3 min de leitura

E o que é esse tal de HARNESS?


A computação sintetiza processos da vida comum em um ambiente virtual que os amplifica. Nesse sentido, é possível perceber que a linguagem empregada no mundo jurídico pelos advogados se assemelha àquilo que fazem os desenvolvedores de software. O advogado submete o código à apreciação da mente do juiz, unidade processadora neural natural que, na maioria das vezes, trabalha em regime de competição entre códigos de linguagem apresentados por unidades opostas — os advogados —, na dialética própria do processo judicial.


Nesse aspecto, o advogado é uma espécie de DEV. Daí por que o harness de inteligência artificial é tão importante para os programadores de software quanto para os advogados: ambos os grupos trabalham com a codificação da linguagem, e a velocidade com que pensamentos, conceitos e ideias submetidos ao processamento da LLM são transmutados em código refinado é o diferencial da geração da inteligência artificial.


Somos todos programadores — ou, na nomenclatura atual do mercado, DEVs. Por isso entender o harness das plataformas de inteligência artificial é tão importante. O harness, expressão que se firmou no vocabulário técnico no início de 2026, é a moldura na qual as ferramentas de inteligência artificial ficam agrupadas e interligadas. Com ele podemos gerir, formular, receber e consultar as interações e os resultados que obtemos dos modelos, e também criar elementos para o uso dessas soluções em um ecossistema que interage com qualquer outro banco de dados ou plataforma. Quando falo em interação, falo em consulta por API, por MCP e diretamente pelo navegador. Podemos, assim, interagir de forma ampliada com todos os sistemas disponíveis, ultrapassando inclusive a restrição de espaço à qual estávamos confinados: a mente de um juiz, que realiza a análise cognitiva do código de linguagem gerado em nossas petições.


Convém saber quais deles interessam. Boa parte do instrumental hoje disponível foi desenhada para programar software e pouco acrescenta à rotina do escritório. Para o trabalho jurídico, o quadro é este:


  • Se você busca a melhor redação e interpretação de contratos: vá de Claude Desktop.

  • Se você precisa analisar cálculos judiciais, tabelas e geração de imagens: vá de ChatGPT Desktop.

  • Se você precisa de menor preço: vá de DeepSeek Harness — aberto, gratuito e lançado em agosto de 2026, embora ainda exija instalação por linha de comando e chave de API, sendo frustrante a limitação de ferramentas e funções. Porém, pelo preço e a necessidade podefazer sentido se aplciado em conjunto com GPT ou o Claude.


Uma ressalva, o Gemini é excelente na análise de processos gigantescos: lê milhares de páginas de uma só vez, sem cortar contexto. Entretanto, o Gemini que o advogado utiliza em agosto de 2026 não é um harness — é modelo e janela de contexto, sem a moldura de ferramentas de que venho tratando. A moldura, no caso do Google, é produto à parte: primeiro o Gemini CLI, hoje sucedido pelo Antigravity CLI, e nenhum dos dois está no computador do advogado comum. Disso decorre que, para quem resolve o seu problema apenas despejando o processo inteiro na janela, a necessidade de um verdadeiro harness pode ser questionada. Acredito, porém, que a resposta depende menos da ferramenta e mais da maturidade do usuário na gestão das próprias ferramentas de inteligência artificial.


Entender a mudança em curso no mercado de programação de software é fundamental para pensar o destino da advocacia nos próximos trinta e seis meses. E digo em curso porque é isso que ela é: ninguém sabe ainda quais serão os seus impactos. Como propõe a pergunta do título desta crônica investigativa, somos todos DEVs do direito.


Olhar para o futuro da programação é olhar para o amanhã da advocacia.

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