• Pedro Roberto Donel

QUEM É AQUELE CABOCLINHO ALI?

Atualizado: Jun 13

Sou pardo e também sofro preconceito.


Lembro que em 2012, em campanha estadual da OAB, fui chamado de “caboclinho” por um antigo ex-dirigente da OAB ESTADUAL. Imagino o que sofrem os afrodescendentes, os negros de todo o mundo.


Hoje eu confrontaria o opressor. Mas, naquele momento, minha reação foi rir para não me sentir excluído. Às vezes, somos responsáveis pelo racismo ao aceitar a agressão. Talvez porque também fomos ensinados a aceitar ser diminuídos. A ofensa que sofri foi um racismo velado. Feita entre sorrisos. Aceita por outros que estavam na mesa. Houve tolerância a favor do racismo e isso não pode acontecer.

O nosso racismo, dito “velado”, é bem pior do que o americano. Lá é explícito e dele é possível se defender. Lembrei do princípio da dialeticidade recursal, no qual a parte que recorre tem que apresentar suas razões para possibilitar o exercício das contrarrazões. É impossível se defender de recurso sem razões expostas e, então, poderíamos concluir que é impossível se defender de racismo velado. Mas não. A vida real não é num processo no qual precisamos esperar o contraditório para agir. A ampla defesa é maior. De modo que não se trata de impossibilidade de defesa, e sim interesse de agir, recorrer e não desistir. Em alguns momentos parece impossível se defender de um racismo velado, como eu mesmo achei naquele momento. Hoje entendo que a questão maior não é ser impossível se defender de um racismo velado, mas achar que é impossível. A possibilidade está em não deixar a oportunidade e o momento precluírem, está em não esperar licença para o contraditório, mas em tão simplesmente manifestar-se e não se calar diante de injustiça - nesse caso racial. “NÃO CONSIGO RESPIRAR!”, foi o grito repetido de George Floyd antes de morrer, mas é também o grito do pardo, é o grito do mundo sufocado pela pandemia, pelo racismo, pela desigualdade social, pelo desemprego, pela pobreza, pela violência policial, pelo autoritarismo, pela intolerância.

As manifestações pela morte de George são elogiáveis, pois elas continuam sendo a voz viva do seu grito.

George era um negro americano, mas era tão humano quanto brancos e pardos, e sua morte por um policial branco revela que não é a cor da pele que define a qualidade de um bom ser humano. Espero realmente que sua morte sirva para mudar o mundo e, em especial, sirva para conscientizar e humanizar quem é racista.

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